GOVERNANÇA HÍDRICA: UMA ANÁLISE DAS ESTRUTURAS DE PODER SOB A PERSPECTIVA DE GÊNERO
DOI:
https://doi.org/10.56238/revgeov16n5-285Palavras-chave:
Transversalização de Gênero, Governança Hídrica, Participação FemininaResumo
A governança da água no Brasil, embora formalmente ancorada em princípios democráticos como a descentralização e a participação social, tem persistido na reprodução de desigualdades de gênero, resultando na limitação da influência e do poder de agência feminina nos espaços decisórios. Este trabalho propõe-se a discutir as barreiras multifacetadas que impedem a plena conversão da atuação feminina em poder substantivo de agência política no Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos de Minas Gerais (SEGRH-MG). A análise é focada nos obstáculos para a participação plena, destacando a atuação persistente do Patriarcado como matriz estruturante, os imperativos da Divisão Sexual do Trabalho com sua imposição da tripla jornada, e a microfísica do Poder Simbólico dentro de arenas de deliberação majoritariamente masculinas. Os resultados indicam que a desigualdade no setor hídrico não se restringe à mera sub-representação numérica, mas decorre de barreiras socioculturais e institucionais que inviabilizam, de forma invisível, a participação contínua e efetiva. Conclui-se que a superação destas barreiras exige uma intervenção de caráter estrutural e transformador, orientada pela estratégia da Transversalização de Gênero (Gender Mainstreaming) para a formulação de políticas públicas que alcancem uma justiça hídrica genuína..
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